quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Enlouquecer

- Ah, pois é! É ou não é, Tia Maria, é ou não é? - E eu sorria-lhe, respondendo que sim, claro que era, Fernando, pois claro que era.
Tinham passado quase trinta anos desde a primeira vez que o vira.
Barba grisalha, quase até ao peito, ainda com alguma migalha perdida de uma escassa côdea que tivesse roído naquela manhã. O cabelo, de tão emaranhado, não deixava perceber se alguma vez tinha conhecido pente que o alinhasse. As calças, amarradas com um cordel, iam escorrendo por ele abaixo e logo corria a segurá-las, para que não o vissem sem preparos.
Nos dias cinzentos, em que o frio se abraçava a uma chuva miudinha, continuava a aparecer - faça chuva ou faça sol, dizia... - com um impermeável amarelo que se via bem antes de lhe ouvirmos os primeiros responsos.
- Tem trabalho para mim, Ti Manel? - Todos eram Manéis e Marias, assim não trocava os nomes e não ofendia ninguém com esquecimentos. Mas conhecia-os a todos, sabia onde falar, onde ficar calado, até onde ir, sem nunca ser mais do que era.
Durante muito tempo, foi o «velho do saco» lá da terra e as mães cultivavam essa inverdade naqueles pequenos que, perante a figura, se encolhiam e terminavam rapidamente a sopa .
É verdade que sempre o conhecera velho, e o saco que trazia consigo, quase vazio, albergava pequenos nadas que, pelo caminho, íam partilhando consigo e lhe permitiam deitar-se com a barriga menos vazia.
Nos primeiros tempos, também me encolhi, receando aquela imagem, aquela voz de trovão e tantas frases sem nexo.
- Tem aí alguma terra para amanhar, ti Manel? - Era o trabalho dele, o de esventrar o solo e prepará-lo para dias de colheita, alinhando aqui, sachando acolá, com cuidado, paciência, sabedoria.
E não percebia se era a enxada que, a cada vez que entrava na terra, lhe alimentava a vontade das palavras ou se eram estas que, em jorros, lhe infundiam energia para continuar.
Não me lembro de o ver calado. Ficava a vê-lo ao longe e já antecipava a frase seguinte, repetida tantas vezes: É ou não é? Ah, pois é!
De tempos a tempos, o tom murchava e as palavras saiam contidas, sentidas: Ai, os malandros, queriam fazer-me a folha! Os irmãos, sim, os dela... Por eles, tinha ido parar ao xelindró ou pior (e rasgava com um dedo a jugular, em jeito dramático)... E ao de cima vinha uma raiva imensa, sempre fervilhante de todas as vezes que se lembrava.
Outros momentos havia em que o olhar se afundava na terra e a voz quase sumida repetia: Ah, e ela, ela... como foi capaz? e ela... e nada mais se ouvia, nos poucos segundos em que o Fernando silenciava.
Nunca ninguém soube ao certo o que lhe aconteceu, mas constava que ficara louco por amor. Um amor tão desvairado e triste, que lhe tinha mantido a bondade, mas roubado o pensar.

Passados quase trinta anos, vi-o há dias a passar perto da minha janela, sachola ao ombro e um impermeável amarelo. Parava amiúde para lançar a quem passava, conhecido ou desconhecido, o seu Ah, pois é!
E dei por mim a perguntar-me se hoje, tanto tempo depois, se poderia enlouquecer por amor. Se seria possível alguém perder-se tanto que nunca mais se encontrasse, por mais vida que vivesse. E soube que sim, ainda que a loucura se passasse a chamar de silêncio ou solidão. E desejei nunca saber de verdade...

E sorri, com a minha princesa ao colo que, ao vê-lo passar, me dizia ao ouvido - É o Fanando, mãe - e aos seus É o não é? respondia, com um sorriso sem receio: Xim, Xim, ah pois é!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A primeira vez

Mãe, tenho um segredo!

Levantara os olhos do livro e olhava agora para ele com toda a atenção. Afogueado, viera a correr e voltava-se para trás, quase que com receio de que alguém viesse também.
Olhara-o bem fundo e o negro dos seus olhos devolveu-me uma ânsia mal escondida, um receio alegre, um querer sem saber como.

Preciso que fiques aqui comigo e sejas a minha guarda costas!
Sempre fiquei ou, pelo menos, sempre tentei estar, estando mesmo, à minha maneira.
Mas, desta vez, ele tinha pedido, expressamente, com aquela urgência, para que ficasse ali.
E o que haveria para guardar, que merecesse tamanho sussuro...?

Tens de ficar a guardar a porta, ninguém pode entrar!
Mas qual era o segredo? Só podia dizer isso.
Mas alguém lhe queria fazer mal? Nem pensar, respondia-me com um sorriso, como se de mal nada houvesse no caso.
Mas era algo errado o que se propunha fazer? Claro que não, mãe! e eu pensava: Claro que não, ía contar se assim fosse?!
E eu poderia entrar, se fosse preciso? Não ía ser necessário, descansa, mãe!

Confiei. Sorri, olhando para aqueles olhos que desde há sete anos me encantavam e fui para junto da porta, empinando os ombros para trás, com ar de autoridade a respeitar-se.

Riu-se da minha reação, do meu consentimento sem detalhes e, olhando à volta, chegou-se ao meu ouvido.
Mãe, combinámos dar o primeiro beijo e tu tens de ficar a tomar conta, para ninguém entrar.

Rir e chorar eram ambas opções possíveis. Não sabia se separadas, se juntas, perante aquele enredo infantil, aquele desejo sincero da primeira vez. Entre uma e outra, combinámos qual seria a desculpa se alguém quisesse entrar.

E foi buscá-la. Corria, com um sorriso de expetativa, parecia ter asas nos pés.

Mas ela não veio.
Contaste à tua mãe, não posso confiar mais em ti, por isso, agora não vou!

Voltou ele, cabisbaixo, dizendo que não fazia mal, mas com a tristeza a espreitar na voz, no olhar que lhe conhecia. Ainda lhe sugeri palavras de reconquista, mas a desconfiança estava lançada e, até ao final das férias, brincaram, jogaram tanto, chapinharam nas poças da praia, mas ela não veio.

Mas ele não desiste e continua à espera, o próximo Verão não tardará.

(Para o filho do meu coração)


domingo, 24 de junho de 2012

O Roubo

Nunca roubara nada. Chegava a pedir emprestado, se caso fosse, mas tinha para si, intimamente, que o que era dos outros não era seu.
Às vezes, acabava por se esquecer de devolver, quando as dos outros se misturavam com as suas, mas logo procurava repor a propriedade e agradecer.

Nunca fora daqueles garotos que, ao passar pelas prateleiras, deixavam cair «sem querer» qualquer coisa para dentro do bolso.
Nem daqueles jovens que tomavam o peso à carteira dos pais, aliviando-a da sua carga.

Mas, naquele dia, não resistira: aquelas palavras pareciam suas, não porque tivesse ilusões de chegar aonde ele chegara, mas porque percebia tão bem cada uma delas. Cada pedaço de alegria, cada nesga de dor, os sins e os nãos, os talvez de braço dado com a esperança.

E por isso se apropriara delas:

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

E acrescentou, por fim: Ainda que mal o saiba, ainda que mal o espere, ainda que mal confie, ainda que mal saiba como. Amor.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dar o salto

Na calada da noite, esgueirava-se por entre as sombras, conquistando escassos centímetros a cada novo avanço. Todos os passos tinham sido ensaiados vezes sem conta, à luz do dia, reconhecendo cada curva, cada declive, os arbustos já convertidos em referências, que lhe norteariam o caminho

Mas, naquele momento, uma escuridão profunda teimara em instalar-se sobre a montanha, quase sentindo uns braços negros de névoa a rodearem-lhe as pernas, a toldarem-no, parecendo querer abrandá-lo, fazê-lo voltar para trás. Nem o rasgo de lua no céu, de tão fino, o poderia iluminar.
Uma pedra que não antecipara, um ramo que se curvava, contrariado, à sua passagem, uma brisa que levaria o cheiro a medo até eles... todos eram, naquele momento, seus inimigos.

Independentemente de tudo o que o travava (ou, sobretudo, por causa de tudo o que o travava), tinha que seguir. Do outro lado, um mundo melhor. A perspetiva de uma vida em liberdade, com uma voz que se ouvisse, sem titubear. Mais tarde, mandaria buscá-la. Mas agora, não podia olhar para trás. Um salto de fé, de esperança, de futuro.

*

Escolhera aquele vestido azul florido que a mãe lhe dera pelos anos, há anos atrás. Assentava-lhe bem, diziam. E fora a última vez que vira a mãe sorrir, enquanto lhe pespegava um beijo na face afogueada. Viera a correr, na altura, para saber que mimo iria ser seu naquele dia. Nada de muito especial, não havia dinheiro para extravagâncias, mas não fazia mal, já estava habituada.

Dentro de um papel amarfanhado, retirou aquele pedaço de tecido, três botões sobre o peito, a condizer com o céu da sua terra. Nas mãos da mãe, ainda se notavam os sinais de o ter cosido todo, pesponto após pesponto, enquanto ela dormia, sem pressentir.

Naquela noite, fora a forma de se sentir especial, acarinhada e lembrar o que havia de ser lembrado. Abotoara o derradeiro botão, porque a cacimba já descia pela serra e o caminho seria longo. A mala, apenas com algumas roupas, tinha as recordações que precisava. E junto ao peito, encaixada num medalhão, a mais preciosa: a fotografia da mãe, que ficava.

Andara tanto, nem sabia o que doía mais, de tanto cansaço. Tentara cantar, como sempre fizera, para espantar aquele medo, de braço dado com uma tristeza que queria entrar. Pousou a mala no chão e, por momentos, nem se importou que lhe acenássem à beira da estrada. Sentou-se sobre a mala e sentiu-a também a desfalecer, com o peso. A sua mala de cartão.

*

Estava de partida. O aviso para o embarque acabara de soar, estava na hora. Um novo mundo estava à sua espera.
Já não era a primeira vez que fazia aquela viagem. Mas a cada nova travessia, a visita tornava-se estadia e a estadia começava a querer tornar-se mais permanente. Sentia que se aproximava o momento de escolher. Olhava para trás e via-se rodeado da família, de tantos amigos, até se recordava dos que o fizeram tropeçar no caminho. Eram parte do seu retrato, do seu percurso. Mesmo jovem, já contava por alguns dedos caminhos que fizera, mergulhos e regressos à superfície para respirar.

Lá haviam tantas portas que podia abrir, tantos olhares que acreditavam em si, que o faziam acreditar ainda mais. Sabia bem o que tinha aqui, o que já se vinha avizinhando, o tamanho das portas que se íam tornando liliputianas. Quem o conhecia, há muito antecipava, percebia a dúvida, a apreensão do salto.
Um salto para um novo mundo, é certo, mas também para uma nova porta em si, para uma adultez maior, para um sentido de vida talvez com mais sentido.





Estou para aqui a escrever, apenas para desejar tanta e tanta sorte nas decisões e nos caminhos, amigo PG.

sábado, 12 de maio de 2012

Alegria a peso

Tinha ficado, agora noutro lado, com uma regularidade diferente, mais distante, mas, curiosamente, mais presente.

Enquanto estivera, durante anos, fora sempre inteira. Estivesse feliz, cansada, a rasgar-se por dentro. Tudo era sentimento, verdade em figura de gente. Pelo menos era assim que a via, alegria a peso quando entrava na sala e nos contagiava com pouco, com tanto.

Cresceram juntas durante anos, aprenderam, partilharam, ensinaram. E sempre gostou de aprender com ela, saber como fazia, quais eram os segredos que não escondia, apenas os vivia, à sua maneira.

 

Um dia, partiu. Lembrava-se bem daquele dia. Não tinha qualquer memória se chovera, se estava calor ou de que horas seriam. Mas ficara-lhe o sentimento de desfecho, de uma tristeza tão funda por vê-la despedir-se, com tudo o que era, com tudo o que simbolizava. Naquela tarde, aquele sítio ficou diferente: as cores, as pessoas, as suas vozes e o que diziam perderam o sentido de outrora. Tinha levado consigo parte da alegria e agora, a custo, procurava por novo brilho, um outro sentido.

Tinha ficado, nos conselhos, nos momentos, agora mais raros. E aquela alegria a peso também lhe mostrou caminhos a percorrer. Que poderia encontrar sentidos e estares em si, dentro, fundo, com uma verdade só sua. (Obrigada pela amizade)


Para uma amiga inteira, verdadeira. Para AL (e Parabéns).
A terceira és tu, AF.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Matrioskas

Nunca tinham ido a casa dela. Por fora, nada de novo. Um prédio entre prédios, castanho como tantos, sem diferenças aparentes à vista desarmada. Zona de tamanha gente, que ali vinha para descansar, sem tempo sequer para colorir a paisagem.

Subiram, em expetativa, sentindo o convite como uma porta de entrada para um outro reino de convivência. Era um daqueles momentos em que os amigos se tornavam parte da família, de um núcleo escolhido, não imposto, em que a amizade se tornava ainda mais especial. Era o dia do aniversário dela.

No meio de tantos prédios, passos cinzentos, indiferentes, percebemos a diferença ao cruzar a ombreira da porta. Sentia-se, não sabia explicar porquê, parecia o aroma de um bolo acabado de fazer, que circulava por toda a casa, unindo, apaziguando.

Quase ao mesmo tempo, vieram as três. Sorrisos de colo, de estar tão ali. Um abraço daqueles a saber a canela e açúcar dos sonhos de infância. Que bom que tínhamos vindo! E fomos entrando, fazendo parte.

Ao olhar para elas, viera-lhe à memória a figura das matrioskas. Rendilhadas de flores, pequenos corações que as cobriam desde os contornos do manto até aos pés. Cores vibrantes. Encaixavam na perfeição. Mãe e filhas.

Simbiose de diferenças, um ritmo pausado articulado pelos anos, pelo sangue, pelo amor. Mais do que as tantas distâncias que se lhes percebiam nos traços, nos caminhos, nas opções, sentia-se o laço. Que as prendia sem apertar, que as sustinha, sem negar as necessárias experiências da vida. Sobretudo, que as fazia acreditar que faziam parte umas das outras, encaixavam naquele sentimento maior. Um sentimento de Família com um F tão maiúsculo que contagiava os presentes, nos contaminava.

Conheciamo-la melhor a ela. Uma das matrioskas, uma pessoa especial. Mesmo que, às vezes, de fora, as rendas de flores, os corações, o manto não fossem vistos, para os nossos olhos, estavam lá e sempre estariam. Porque sabíamos que aquelas flores continuariam a florescer, a assumir novas cores, a ramificar por outros, melhores, caminhos.

E essa era a nossa prenda. Acreditávamos, acreditamos e sabemos que a primavera e tantas estações vão chegar. E as suas flores, que não murcharam nem definharam, estão lá, com as cores que são só suas, especiais.

Para a AF.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedaço de Bolo

Desta vez ía fazer diferente. Esticara-se até ao limite para alcançá-la, em bicos de pés, as pontas dos dedos apontando para um objetivo que tardava, inalcançável. Sempre fizera assim, de cada vez que queria fazer um sabor especial, um agrado para todos e também para si.

Olhava para cima e, de todas as vezes, esticava cada músculo do seu corpo até que a sua mão conseguisse tocar a prateleira de cima. Mas jamais conseguira chegar lá. E como nunca era suficiente, chegava a pegar numa qualquer colher para tentar puxá-la para si. E lá, finalmente, vinha por aí abaixo, aos tropeções, plástico de um rosa já gasto pelo uso, mas sempre cumprindo o seu papel.

Desta vez ía ser diferente. Não se esticou do mesmo modo, já sabia que não resultava. Pegou num banco, subiu de um ímpeto e alcançou a taça, descendo de um salto, para começar os preparativos. Sobre a bancada, tinha colocado tudo o que iria precisar, para não perder tempo, para aguardar com expetativa o resultado final.

Desta vez ía ser igual. A mesma taça, a mesma bancada, as mesmas varetas. O mesmo bolo, laranja de cor, de sabor também, de recordações e do permanente prazer da vez seguinte, acolhido num sumo de frescura e suavidade.

E, um a um, foi deixando cair os ingredientes, e misturando, e envolvendo, ora em movimentos de candura, ora em correrias tão rápidas quanto as varetas permitiam, na pressa de provar. E com a ponta do dedo confirmava o que já sabia: o seu sabor, o sabor de sempre, o que queria, de todas as vezes.

O calor dos minutos foi passando; arriscava, de tempos a tempos, dar uma espreitadela daquelas em que se foge, sem que antes um olhar confirme o progresso e um sorriso aflore, de antecipação. O cheiro inundava a casa, avisando que o desfecho estava para breve.

Fazia lembrar a cor daquelas paisagens douradas pelo sol, em que o entardecer trazia os cheiros que antecipavam a escuridão. Orgulhosa, aqueceu durante segundos as mãos ao virá-lo. E o sumo, derramado, foi criando raízes pelo dourado adentro, deixando a sua marca.

Habitualmente não era ela que fazia as honras da casa. Gostava que antes dela confirmassem o sabor, a textura, o agrado. E a confirmação de sucesso vinha daí.

Lembrou-se de uma frase que ouvira, de que não podia ter e comer ao mesmo tempo. Tão dourado, tão aparentemente saboroso, tão orgulhosa que estava. Desta vez ía fazer diferente: pegou na faca, cortou a primeira fatia, fechou os olhos e deu a dentada original. E estava tão bom o seu bolo!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Negativos

Deitada, revia, de olhos fechados, o dia quase terminado. Agitado, como se antecipara. Com muitas solicitações, de tantos lados, como já seria de esperar. Todos para ver a menina, enchê-la de beijos, ouvir, pasmados, as graças que já dizia, acompanhadas de um olhar que parecia já tanto saber, ainda sem saber. Tinham vindo todos.

Estás mais gorda!
Esse cabelo já não é o que era...
Que olhar tão triste, as lágrimas parecem encolher-se por vergonha...
Já vi esse fato tantas vezes, o verdadeiro fato de cerimónias!
Podias ter vindo melhor, esse gosto deixa tanto a desejar...

Frase após frase, recordava todas as palavras que tinha colado a cada um deles, à medida que lhes fora passando no caminho, com ela ao colo.
Não mais do que um breve sorriso, um cumprimento às pressas, que o gancho teimava em ser arrancado de entre os caracóis e o chapéu branco ficara já perdido no chão, alguns passos atrás.

Entrar-se mudo e sair-se calado...
Que mau aspeto, ainda mais numa ocasião destas!

À medida que a máquina disparava, congelando no tempo as memórias daquele dia - e tantos eram os sorrisos, as conversas em surdina, os olhares de encantamento, as brincadeiras das crianças - também ela ia fazendo o seu álbum, colando as fotografias que tirara, a preto e branco.

Lembrava-lhe aquelas tiras de negativos das fotografias de outrora, algumas ainda esquecidas no fundo de uma qualquer gaveta, em que as pessoas só se percebiam a contra luz, em contornos negros quase indistintos. Assim tinha capturado as imagens daquele dia tão especial, a negativo.

E conforme o escuro da noite ía ocupando os cantos do quarto, lançou um último olhar para ela, para eles, já adormecidos, e sorriu.

Apesar de tudo, vieste, estás aqui.
Mudas tantas vezes o teu caminho para me ajudar.
Adoras aqueles que mais adoro...
Tens estado sempre aqui, nos dias de sol, mas sobretudo quando a neblina se instala e o caminho se esbate...
Tudo fazes para me fazer sorrir!

E os negativos ganharam vida no seu álbum. Porque eram assim aquelas pessoas, as escolhidas para estar ali naquele dia, as que escolheram estar ali naquele momento.
Inteiras, presentes, amigas. As suas pessoas do coração.

domingo, 1 de abril de 2012

Special Day

Naquela semana, tinha chovido todos os dias. Uma neblina que se agarrava às coisas perdurava durante longas horas e as grossas gotas de chuva persistiam em embaciar os dias.

Momentos que gostaria que fossem de sol, resplandescente, contagiante, para acompanhar o sorriso que a vinha acompanhando nesses últimos dias. Os preparativos tinham o seu quê de mágico: detalhes sem importância que, encaixados com carinho, se revelariam em momentos de significado, inesquecíveis. Acabou por desistir de sonhar com o bom tempo e antecipou com expetativa os abençoados auspícios da chuva.

O dia nasceu radioso, para sua surpresa. Afinal, a natureza tinha decidido juntar-se ao encantamento e deixar-se descobrir no melhor de si. Os primeiros raios de sol que entravam pelas nesgas de estore entreabertas eram o sinal de partida para uma nova alvorada, uma nova vida.

Olhou-se ao espelho e percorreu com a ponta dos dedos as minúsculas peças que adornavam o vestido, pedrinhas cintilantes que pareciam ganhar vida de cada vez que rodopiava, capturando os matinais raios de sol. Formavam caminhos, cruzavam-se, encaixavam-se em cornucópias sobre aquela vastidão de branco; sobretudo, eram o espelho de uma felicidade maior, a dela, em antecipação.

Foi o primeiro dia mais feliz da sua vida. Porque estavam juntos, ali, ouvindo-se ao longe (e tão ao perto) uma emoção celestial.

Não sabia na altura que aqueles traços desenhados no vestido quase pareciam a vida que viria.
Movimentos em harmonia,  pedra por pedra, brilhantes, de pessoas que encontraram o seu sentido no outro.
Algumas missangas cairam, ficaram pelo caminho, levando a descobrir outros contornos nos desenhos que estavam e a capturar novos sóis para que tantas, tantas outras continuassem a cintilar.

E o desenho que lá estava, desde o início, foi sendo feito em dias, redescoberto, redesenhado. A cada dia feliz.

(a tantos tantos mais, até que os nossos sóis se ponham)

quarta-feira, 28 de março de 2012

CEO de cousa nenhuma (II) – Palavras do mundo

Naquele dia, o segundo, já lhes conhecia os ritmos, as perguntas, já não apenas para saber, mas tantos deles para continuarem a dar-se a conhecer. E já reconhecia algumas caras, alguns sorrisos e acenos soavam agora menos estranhos, mesmo que fruto de vislumbres de breves segundos anteriores.

Um desses sorrisos irrompeu pelo branco e negro – passara um dia, mas a premissa do cinzentismo institucional era status quo incontornável – e contagiou com um bom dia inesperado de tão efusivo. Lembrava-se do dia anterior, tinha lido tudo o que levara e voltara para continuar a conversa. E não tinha gostado do que lera!

Por entre o sorriso e o aceno da praxe, levantou-se um sobrolho de estranheza e curiosidade. Não gostou? E concretamente de quê?

E a resposta não tardou em chegar, tão efusiva quanto as boas vindas iniciais, mas agora contundente, revoltosa: Vocês já não sabem escrever em português, não há nada que se leia por aqui que seja exclusivamente na nossa Língua. Hoje são os downsizings, a performance, os outsourcings, o coaching…!

E ia folheando o que levara para ler, em busca das tão pouco desejadas palavras, para quase gritá-las de forma triunfante de cada vez que as encontrava. Curiosamente, naquilo que era mesmo nosso, pouco encontrara (pois, se calhar não foi nesta!, dizia entredentes). Mas que isso não fosse pretexto para abrandar no elogio da língua pátria, ferida de morte por anglicismos e códigos empresariais usurpadores, desrespeitosos de uma riqueza desaproveitada – Hoje já não há diretores gerais, administradores, gestores de topo, hoje são todos CEOs (parara para respirar, tamanho o ímpeto de que tudo saísse, em bom português), mas, no final de contas, CEOs de coisa nenhuma! Ainda se escrevessem em latim, ainda tinha a ver com as nossas origens…

Os argumentos vieram em catadupa, respeitosos, é certo, mas já não se podia ser branco ou preto quando se tratava de defender o que fazia. Mas do outro lado, cada vez menos sustentados, continuavam os impropérios politicamente corretos «àquele estado de coisas».

E, num segundo, parte de si viajou para aqueles momentos em que, todos os dias, se esforçava por se ajustar, aprender, interiorizar uma outra forma de escrever «as cousas» numa nova língua, agora diferente, mas sempre a sua, em que o que não se lia caíra repentinamente, como quem tropeçara pelas escadas e já não voltara a ser.

Sempre gostara de escrever em bom português, mas agora tinha que lhe comer as letras e os acentos e engolir a vontade de não fazê-lo, também em prol do que era institucional. Mesmo que tivesse assinado tudo o que havia para assinar, dito que as razões não eram nossas e que a mudança podia ser de maneira diversa, o processo (também o seu) já estava em marcha.

Curioso como poucas palavras de outras paragens podiam ser tão aflitivas para alguns, ao passo que, com as nossas, estávamos a fazer exactamente o mesmo: a torná-las mais do mundo, mas (ironicamente) menos nossas.

E ainda que isso não parecesse incomodar quem ali estava, afligia-a ela.

CEO de cousa nenhuma (I) - A preto e branco

Sorrir e acenar, sorrir e acenar! Era a frase que lhe viera, repentinamente, à cabeça: uma memória de pinguins alinhados, saídos de um filme de animação, um eterno branco e preto, no cumprimento do seu dever. Todos iguais, sem sair da linha.

Sorria e cumprimentava, respondia, perguntava, chamava a atenção para o que de melhor faziam. Mesmo quando não dizia tudo, quando guardava pedaços de curiosidade para futuras conversas, ou fazia perguntas curiosas para, no meio dos acenos, reduzir a sensação de que a linha que seguia lhe apertava o peito.

Era tanta gente, ainda que menos do que das outras vezes. Compenetrados, alguns sorridentes, tantos também a cumprirem o seu papel de serem vistos, de picarem o ponto, num mundo em que não estar era sinónimo de já não ser.

Era no meio deles que gostaria de estar, de passar a estar. Seria tão mais fácil se tivesse tomado decisões diferentes, se tivesse sentido antes que o seu caminho era aquele. Fosse a preto e branco ou a cores ou independentemente da paleta cromática que fosse a sua, era para ali que queria ir, sabia disso.

Às vezes vinham aos magotes, quase se atropelavam, para perceber o que havia ali, o que poderiam ficar a conhecer, o que poderiam levar, como se poderiam mostrar a todos, em todo o lado. E as vozes sobrepunham-se, só sendo possível sorrir para alguns, enquanto os outros se limitavam a passar, pegar nos papéis e seguir para a paragem seguinte, onde diferentes pinguins os esperariam.

Outras vezes reinava a quietude, e os sorrisos e acenos davam lugar a conversas, a descobertas breves, de situações, de pessoas, que agora circulavam com mais calma, dispostas a saber de verdade.

Era também assim a estranheza surpreendente da vida (ou a surpresa estranha da mesma, só mudava o ponto de vista…) – às vezes, de momentos em que não gostaria de estar, vinham palavras simpáticas, de verdadeiro interesse pelo que fazia. E assim o dia ficava melhor.

domingo, 18 de março de 2012

Sonho

Certa noite deitada no meu quarto,
adormeci num sono ledo e profundo,
vivi um sonho, o enigma,
de um novo estranho mundo.

Perdi-me na beleza desse mundo,
perdi-me nessa paz, que nem o céu,
rendi-me à calma e à magia
que ansiava que existisse no meu.

Sobrevoei pelas marcas da memória,
vagueei pelo sonho sem tempo,
encontrei a Felicidade e a Sorte
mas esvoaçavam em turbilhão pelo vento.
 
Despertei em sobressalto no meu quarto,
na escura e fria madrugada,
na tristeza mais amarga e profunda,
por estar simplesmente acordada.

Afundei-me novamente no negro leito
cobrindo a angústia com um véu,
esperando por um novo estranho mundo
que um dia ansiei que fosse meu.

Uma é prosa, outra é poesia.
Escreve, partilha, sonha. Agradeço-te do coração.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Reflexos

Era linda. Costumava ouvir essas palavras, ditas de tantas formas, diferentes palavras, um mesmo sentido.

Um sorriso iluminado, um olhar que escondia segredos à espera de serem revelados, um carinho quase à flor da pele. Era linda e meneava sem saber.

Era linda e nunca acreditara que o fosse. Um tom doce, um gesto caloroso tinham sido sempre, no seu interior, epítetos de fraqueza e não parte da sua grande força. A beleza que tantos viam nunca lhe fez eco, nunca a sentiu verdadeira, dentro de si.

Um dia, alguém especial disse-lhe que era especial e, por breves instantes, sonhou que isso fosse possível. Um dia, chegou mesmo a sentir que era a mulher mais bonita do universo, quando, face a um futuro por descobrir, disse sim ao seu princípe encantado.

Mas esse encanto dos momentos especiais não chegava para os dias em que se olhava ao espelho e via sobretudo os defeitos e as rugas, frustrações, sonhos por cumprir, tantas dúvidas e medos.

Era linda e não sabia. E os outros, com o tempo, e talvez vencidos pelo cansaço, começaram também a reparar naqueles cambiantes de cinza, que foram contaminando os olhos.

Um dia foi mãe. E nesse dia viu a criança mais linda do seu mundo, uns olhos negros que pareciam um firmamento de promessas, uma imensidão de sonhos por cumprir. E aí mergulhou, na certeza de querer fazê-la feliz, mesmo sem saber como.

E num dos muitos dias, já distantes do minuto original, em que lhe dizia que tinha tudo para ser e crescer como quisesse, deu por si a olhar-se ao espelho nesses olhos e a receber de volta um reflexo inesperadamente doloroso.

Aquele menino também não acreditava. Mas como podia uma criança tão profundamente boa sentir que não era especial, como  podia acreditar que pequenas falhas lhe retiravam o valor do seu coração? Como fazer para que percebesse, acreditasse, sentisse verdadeiramente todo o tamanho do que era e do que poderia ser?

E a voz especial, que não desistira, respondeu baixinho: E como podes tu não ver-te a ti?
(e serás a pessoa que, neste mundo, melhor o entenderá...)

O desafio de recomeçar ficou, nesse dia, tão mais pujante, urgente, maior...

terça-feira, 13 de março de 2012

The moment is now

Live in the moment.
This could be the single most important piece of advice you ever heed to. Do not forget nor dwell on the past, but do forgive it. Be aware of the future but do no fear or worry about it. Focus on the present moment, and that moment alone. All of the cliche phrases center around this all-important mantra: Live life to the fullest, seize the day, etc. Living in any other moment will only bring you anguish. The past cannot be changed and the future cannot be controlled. The only time that is malleable is the present moment! If you live in the now, you will be much happier since the past and future cannot weigh down on you. See the good in your current surroundings and be happy.

Às vezes, nas palavras dos outros ecoam as nossas... 

Pressa de sair

Tinha tanta pressa de sair, que me esqueci de olhar em volta e perceber que estava no meio de um novo mundo.
Tinha tanta pressa de deixar a voz sair, que não me lembrei que as palavras, uma vez cá fora, também passam a ser um pouco dos outros.
Hão-de haver dias em que continuarei com a mesma pressa, de dizer tudo, de dizer tanto. Outros em que a calma reinará e as palavras sairão das pontas dos dedos com mais leveza.

Não sei para onde vou, só sei que quero ir por aqui!
Por isso, hoje, oficialmente, dou as boas-vindas a todos quantos também quiserem vir, para partilhar os meus/seus momentos, ou simplesmente para estarem, aqui.

sábado, 10 de março de 2012

Palavras

Acredito nas Palavras.

Grandes ou simples ditongos, agudas, graves, complexas, banais, difíceis de pronunciar ou até de combinar, sempre gostei de palavras. De misturá-las, baralhá-las, procurar-lhes novos sentidos, deixar que dessem expressão ao que tenho cá por dentro.

Sempre acreditei no que está em cada combinação de letras, como se fossem a representação literal, sem subterfúgios, de pensamentos, emoções, pedaços de vida.

Há algum tempo, uma das pessoas mais importantes da minha vida disse-me que eu valorizava as palavras mais do que a maioria dos comuns mortais. E é verdade.
Se são momentos de coragem, de ânimo, gosto de ouvi-los na forma de palavras que me façam acreditar que amanhã será melhor. Nas chamadas de atenção, gosto que mas digam certeiras, concretas, sem cartas que fiquem na manga para descobrir mais tarde.
E quando são palavras de amor, envoltas num encanto tão especial, só o seu som, em sussuro, acalma os lados lunares, trazendo a luz do sol para onde se sente.

Gosto em especial das palavras escritas. Ficam, perduram, depois de lidas e relidas e sentidas e guardadas onde não se descubram (ou talvez para serem descobertas), para mais tarde voltar ao travo que deixaram à primeira passagem.

Porque gosto tanto? Talvez o ato da escrita seja, em essência um momento de verdade, em que as palavras sejam «a palavra» (até se costuma dizer «tens a minha palavra», para afiançar verdades ou compromissos), em que o que fica escrito não possa ser nem mais nem menos que uma versão transparente e honesta da realidade.

Guardo ainda hoje palavras que me marcaram, releio-as com saudades de tantos momentos bons, com angústia ao lembrar-me de outros. São cartas, bilhetes, folhas soltas, sms, em que a palavra ficou, com verdade. São minhas, foram escritas por mim ou para mim, posso fazer com elas o que quiser... rasgá-las em pedaços, apagá-las, afogá-las em lágrimas, ou guardá-las (como tenho feito) e trazê-las bem perto de mim, para lembrar, para sentir. Assim continuará, enquanto acreditar (como acredito) que continua a valer a pena relê-las.

É curioso como o universo digital e o potencial de estarmos todos ligados, em tempo real, uns aos outros, veio revolucionar esse mundo das palavras. Hoje todos escrevem, partilham, têm opinião. Piadas, frases inspiradas, ideias que pretendem inflamar o mundo (ou, pelo menos, conquistar «likes» dos amigos). Alguns chegam a escrever a verdade, a sua versão, que também se torna a verdade dos seus.

Então o que fazer com a verdade de algumas dessas palavras? O que fazer quando, em vez de iluminarem, magoam? Como fazê-las voltar atrás? Verdades que retratam momentos, e que ficam, lidas, inapagadas, lembrando... Mesmo que se apagassem, o seu rasto tinha já ficado vincado em tantas leituras.

O que fazer com o desejo quase insano de que essas sejam substituídas por outras, que sinalizem ao mundo um mundo de novas possibilidades, em que rotinas e desafios encontrem a expressão certa e nos façam felizes?

Vou continuar a procurar as palavras, porque, para mim, a verdade derradeira continua a estar aí.
Mas, o que fazer com a espera pela visibilidade de outras palavras? Nada, apenas esperar, e acreditar que, na sua plenitude, virão.

E, sobretudo, encontrar as minhas próprias palavras!


segunda-feira, 5 de março de 2012

Momento de Recomeçar

Eram já daquele tom cálido dos finais de tarde, quando os raios de sol se escondiam na expetativa de um próximo regresso e deixavam ficar uma luz que amarelecia, gasta pelos dias. As nervuras denunciavam caminhos e escolhas que, por vezes, desembocavam em parte nenhuma ou em partes tão iguais a tantas outras que a paisagem se tornava uma só, indistinta, esfumada.
À passagem de vidas corridas, cirandavam pelo ar, parecendo brincar, mas tão-somente para voltarem a cair, umas sobre as outras, num manto outonal.
O inverno tinha sido tão suave que continuavam ali, pelo chão, tal qual tinham caído das árvores, mas mais secas, mais quebradas, remexidas por tantos passos que não se desviavam e insistiam em seguir por aí.
Naquela sexta-feira, a neblina da quase noite tinha conseguido mudar o rumo daqueles que, em busca do lar, se abrigavam e deixavam a salvo as folhas quase adormecidas.
Mas, sem se saber de onde, um passo mais firme, que não se adivinhava e nunca se imaginara, avançou sobre aquele manto e, naquele momento, em cada folha, cada nervura, cada matiz outonal ouviu-se um soluço indelével, que ecoou longamente.

Mas ao longe, por entre as pedras e as folhas que ficaram, um novo rebento espreitava, tímido, ofuscado com uma luz que não conhecia,  em busca de si, do (seu) mundo e dos raios de sol. Confiante, esperançado, certo da escolha, incerto o caminho. Um novo começo.

Este é o momento de Recomeçar.
Este é um bom momento para «Recomeçares».