Na calada da noite, esgueirava-se por entre as sombras, conquistando escassos centímetros a cada novo avanço. Todos os passos tinham sido ensaiados vezes sem conta, à luz do dia, reconhecendo cada curva, cada declive, os arbustos já convertidos em referências, que lhe norteariam o caminho
Mas, naquele momento, uma escuridão profunda teimara em instalar-se sobre a montanha, quase sentindo uns braços negros de névoa a rodearem-lhe as pernas, a toldarem-no, parecendo querer abrandá-lo, fazê-lo voltar para trás. Nem o rasgo de lua no céu, de tão fino, o poderia iluminar.
Uma pedra que não antecipara, um ramo que se curvava, contrariado, à sua passagem, uma brisa que levaria o cheiro a medo até eles... todos eram, naquele momento, seus inimigos.
Independentemente de tudo o que o travava (ou, sobretudo, por causa de tudo o que o travava), tinha que seguir. Do outro lado, um mundo melhor. A perspetiva de uma vida em liberdade, com uma voz que se ouvisse, sem titubear. Mais tarde, mandaria buscá-la. Mas agora, não podia olhar para trás. Um salto de fé, de esperança, de futuro.
*
Escolhera aquele vestido azul florido que a mãe lhe dera pelos anos, há anos atrás. Assentava-lhe bem, diziam. E fora a última vez que vira a mãe sorrir, enquanto lhe pespegava um beijo na face afogueada. Viera a correr, na altura, para saber que mimo iria ser seu naquele dia. Nada de muito especial, não havia dinheiro para extravagâncias, mas não fazia mal, já estava habituada.
Dentro de um papel amarfanhado, retirou aquele pedaço de tecido, três botões sobre o peito, a condizer com o céu da sua terra. Nas mãos da mãe, ainda se notavam os sinais de o ter cosido todo, pesponto após pesponto, enquanto ela dormia, sem pressentir.
Naquela noite, fora a forma de se sentir especial, acarinhada e lembrar o que havia de ser lembrado. Abotoara o derradeiro botão, porque a cacimba já descia pela serra e o caminho seria longo. A mala, apenas com algumas roupas, tinha as recordações que precisava. E junto ao peito, encaixada num medalhão, a mais preciosa: a fotografia da mãe, que ficava.
Andara tanto, nem sabia o que doía mais, de tanto cansaço. Tentara cantar, como sempre fizera, para espantar aquele medo, de braço dado com uma tristeza que queria entrar. Pousou a mala no chão e, por momentos, nem se importou que lhe acenássem à beira da estrada. Sentou-se sobre a mala e sentiu-a também a desfalecer, com o peso. A sua mala de cartão.
*
Estava de partida. O aviso para o embarque acabara de soar, estava na hora. Um novo mundo estava à sua espera.
Já não era a primeira vez que fazia aquela viagem. Mas a cada nova travessia, a visita tornava-se estadia e a estadia começava a querer tornar-se mais permanente. Sentia que se aproximava o momento de escolher. Olhava para trás e via-se rodeado da família, de tantos amigos, até se recordava dos que o fizeram tropeçar no caminho. Eram parte do seu retrato, do seu percurso. Mesmo jovem, já contava por alguns dedos caminhos que fizera, mergulhos e regressos à superfície para respirar.
Lá haviam tantas portas que podia abrir, tantos olhares que acreditavam em si, que o faziam acreditar ainda mais. Sabia bem o que tinha aqui, o que já se vinha avizinhando, o tamanho das portas que se íam tornando liliputianas. Quem o conhecia, há muito antecipava, percebia a dúvida, a apreensão do salto.
Um salto para um novo mundo, é certo, mas também para uma nova porta em si, para uma adultez maior, para um sentido de vida talvez com mais sentido.
Estou para aqui a escrever, apenas para desejar tanta e tanta sorte nas decisões e nos caminhos, amigo PG.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
Alegria a peso
Tinha
ficado, agora noutro lado, com uma regularidade diferente, mais distante, mas,
curiosamente, mais presente.
Para uma amiga inteira, verdadeira. Para AL (e Parabéns).
A terceira és tu, AF.
Enquanto
estivera, durante anos, fora sempre inteira. Estivesse feliz, cansada, a
rasgar-se por dentro. Tudo era sentimento, verdade em figura de gente. Pelo
menos era assim que a via, alegria a peso quando entrava na sala e nos
contagiava com pouco, com tanto.
Cresceram
juntas durante anos, aprenderam, partilharam, ensinaram. E sempre gostou de
aprender com ela, saber como fazia, quais eram os segredos que não escondia,
apenas os vivia, à sua maneira.
Um dia,
partiu. Lembrava-se bem daquele dia. Não tinha qualquer memória se chovera, se
estava calor ou de que horas seriam. Mas ficara-lhe o sentimento de desfecho,
de uma tristeza tão funda por vê-la despedir-se, com tudo o que era, com tudo o
que simbolizava. Naquela tarde, aquele sítio ficou diferente: as cores, as
pessoas, as suas vozes e o que diziam perderam o sentido de outrora. Tinha
levado consigo parte da alegria e agora, a custo, procurava por novo brilho, um
outro sentido.
Tinha ficado, nos conselhos, nos momentos, agora mais
raros. E aquela alegria a peso também lhe mostrou caminhos a percorrer. Que
poderia encontrar sentidos e estares em si, dentro, fundo, com uma verdade só sua. (Obrigada pela amizade)
Para uma amiga inteira, verdadeira. Para AL (e Parabéns).
A terceira és tu, AF.
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