quinta-feira, 5 de abril de 2012

Negativos

Deitada, revia, de olhos fechados, o dia quase terminado. Agitado, como se antecipara. Com muitas solicitações, de tantos lados, como já seria de esperar. Todos para ver a menina, enchê-la de beijos, ouvir, pasmados, as graças que já dizia, acompanhadas de um olhar que parecia já tanto saber, ainda sem saber. Tinham vindo todos.

Estás mais gorda!
Esse cabelo já não é o que era...
Que olhar tão triste, as lágrimas parecem encolher-se por vergonha...
Já vi esse fato tantas vezes, o verdadeiro fato de cerimónias!
Podias ter vindo melhor, esse gosto deixa tanto a desejar...

Frase após frase, recordava todas as palavras que tinha colado a cada um deles, à medida que lhes fora passando no caminho, com ela ao colo.
Não mais do que um breve sorriso, um cumprimento às pressas, que o gancho teimava em ser arrancado de entre os caracóis e o chapéu branco ficara já perdido no chão, alguns passos atrás.

Entrar-se mudo e sair-se calado...
Que mau aspeto, ainda mais numa ocasião destas!

À medida que a máquina disparava, congelando no tempo as memórias daquele dia - e tantos eram os sorrisos, as conversas em surdina, os olhares de encantamento, as brincadeiras das crianças - também ela ia fazendo o seu álbum, colando as fotografias que tirara, a preto e branco.

Lembrava-lhe aquelas tiras de negativos das fotografias de outrora, algumas ainda esquecidas no fundo de uma qualquer gaveta, em que as pessoas só se percebiam a contra luz, em contornos negros quase indistintos. Assim tinha capturado as imagens daquele dia tão especial, a negativo.

E conforme o escuro da noite ía ocupando os cantos do quarto, lançou um último olhar para ela, para eles, já adormecidos, e sorriu.

Apesar de tudo, vieste, estás aqui.
Mudas tantas vezes o teu caminho para me ajudar.
Adoras aqueles que mais adoro...
Tens estado sempre aqui, nos dias de sol, mas sobretudo quando a neblina se instala e o caminho se esbate...
Tudo fazes para me fazer sorrir!

E os negativos ganharam vida no seu álbum. Porque eram assim aquelas pessoas, as escolhidas para estar ali naquele dia, as que escolheram estar ali naquele momento.
Inteiras, presentes, amigas. As suas pessoas do coração.

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