quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Enlouquecer

- Ah, pois é! É ou não é, Tia Maria, é ou não é? - E eu sorria-lhe, respondendo que sim, claro que era, Fernando, pois claro que era.
Tinham passado quase trinta anos desde a primeira vez que o vira.
Barba grisalha, quase até ao peito, ainda com alguma migalha perdida de uma escassa côdea que tivesse roído naquela manhã. O cabelo, de tão emaranhado, não deixava perceber se alguma vez tinha conhecido pente que o alinhasse. As calças, amarradas com um cordel, iam escorrendo por ele abaixo e logo corria a segurá-las, para que não o vissem sem preparos.
Nos dias cinzentos, em que o frio se abraçava a uma chuva miudinha, continuava a aparecer - faça chuva ou faça sol, dizia... - com um impermeável amarelo que se via bem antes de lhe ouvirmos os primeiros responsos.
- Tem trabalho para mim, Ti Manel? - Todos eram Manéis e Marias, assim não trocava os nomes e não ofendia ninguém com esquecimentos. Mas conhecia-os a todos, sabia onde falar, onde ficar calado, até onde ir, sem nunca ser mais do que era.
Durante muito tempo, foi o «velho do saco» lá da terra e as mães cultivavam essa inverdade naqueles pequenos que, perante a figura, se encolhiam e terminavam rapidamente a sopa .
É verdade que sempre o conhecera velho, e o saco que trazia consigo, quase vazio, albergava pequenos nadas que, pelo caminho, íam partilhando consigo e lhe permitiam deitar-se com a barriga menos vazia.
Nos primeiros tempos, também me encolhi, receando aquela imagem, aquela voz de trovão e tantas frases sem nexo.
- Tem aí alguma terra para amanhar, ti Manel? - Era o trabalho dele, o de esventrar o solo e prepará-lo para dias de colheita, alinhando aqui, sachando acolá, com cuidado, paciência, sabedoria.
E não percebia se era a enxada que, a cada vez que entrava na terra, lhe alimentava a vontade das palavras ou se eram estas que, em jorros, lhe infundiam energia para continuar.
Não me lembro de o ver calado. Ficava a vê-lo ao longe e já antecipava a frase seguinte, repetida tantas vezes: É ou não é? Ah, pois é!
De tempos a tempos, o tom murchava e as palavras saiam contidas, sentidas: Ai, os malandros, queriam fazer-me a folha! Os irmãos, sim, os dela... Por eles, tinha ido parar ao xelindró ou pior (e rasgava com um dedo a jugular, em jeito dramático)... E ao de cima vinha uma raiva imensa, sempre fervilhante de todas as vezes que se lembrava.
Outros momentos havia em que o olhar se afundava na terra e a voz quase sumida repetia: Ah, e ela, ela... como foi capaz? e ela... e nada mais se ouvia, nos poucos segundos em que o Fernando silenciava.
Nunca ninguém soube ao certo o que lhe aconteceu, mas constava que ficara louco por amor. Um amor tão desvairado e triste, que lhe tinha mantido a bondade, mas roubado o pensar.

Passados quase trinta anos, vi-o há dias a passar perto da minha janela, sachola ao ombro e um impermeável amarelo. Parava amiúde para lançar a quem passava, conhecido ou desconhecido, o seu Ah, pois é!
E dei por mim a perguntar-me se hoje, tanto tempo depois, se poderia enlouquecer por amor. Se seria possível alguém perder-se tanto que nunca mais se encontrasse, por mais vida que vivesse. E soube que sim, ainda que a loucura se passasse a chamar de silêncio ou solidão. E desejei nunca saber de verdade...

E sorri, com a minha princesa ao colo que, ao vê-lo passar, me dizia ao ouvido - É o Fanando, mãe - e aos seus É o não é? respondia, com um sorriso sem receio: Xim, Xim, ah pois é!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A primeira vez

Mãe, tenho um segredo!

Levantara os olhos do livro e olhava agora para ele com toda a atenção. Afogueado, viera a correr e voltava-se para trás, quase que com receio de que alguém viesse também.
Olhara-o bem fundo e o negro dos seus olhos devolveu-me uma ânsia mal escondida, um receio alegre, um querer sem saber como.

Preciso que fiques aqui comigo e sejas a minha guarda costas!
Sempre fiquei ou, pelo menos, sempre tentei estar, estando mesmo, à minha maneira.
Mas, desta vez, ele tinha pedido, expressamente, com aquela urgência, para que ficasse ali.
E o que haveria para guardar, que merecesse tamanho sussuro...?

Tens de ficar a guardar a porta, ninguém pode entrar!
Mas qual era o segredo? Só podia dizer isso.
Mas alguém lhe queria fazer mal? Nem pensar, respondia-me com um sorriso, como se de mal nada houvesse no caso.
Mas era algo errado o que se propunha fazer? Claro que não, mãe! e eu pensava: Claro que não, ía contar se assim fosse?!
E eu poderia entrar, se fosse preciso? Não ía ser necessário, descansa, mãe!

Confiei. Sorri, olhando para aqueles olhos que desde há sete anos me encantavam e fui para junto da porta, empinando os ombros para trás, com ar de autoridade a respeitar-se.

Riu-se da minha reação, do meu consentimento sem detalhes e, olhando à volta, chegou-se ao meu ouvido.
Mãe, combinámos dar o primeiro beijo e tu tens de ficar a tomar conta, para ninguém entrar.

Rir e chorar eram ambas opções possíveis. Não sabia se separadas, se juntas, perante aquele enredo infantil, aquele desejo sincero da primeira vez. Entre uma e outra, combinámos qual seria a desculpa se alguém quisesse entrar.

E foi buscá-la. Corria, com um sorriso de expetativa, parecia ter asas nos pés.

Mas ela não veio.
Contaste à tua mãe, não posso confiar mais em ti, por isso, agora não vou!

Voltou ele, cabisbaixo, dizendo que não fazia mal, mas com a tristeza a espreitar na voz, no olhar que lhe conhecia. Ainda lhe sugeri palavras de reconquista, mas a desconfiança estava lançada e, até ao final das férias, brincaram, jogaram tanto, chapinharam nas poças da praia, mas ela não veio.

Mas ele não desiste e continua à espera, o próximo Verão não tardará.

(Para o filho do meu coração)


domingo, 24 de junho de 2012

O Roubo

Nunca roubara nada. Chegava a pedir emprestado, se caso fosse, mas tinha para si, intimamente, que o que era dos outros não era seu.
Às vezes, acabava por se esquecer de devolver, quando as dos outros se misturavam com as suas, mas logo procurava repor a propriedade e agradecer.

Nunca fora daqueles garotos que, ao passar pelas prateleiras, deixavam cair «sem querer» qualquer coisa para dentro do bolso.
Nem daqueles jovens que tomavam o peso à carteira dos pais, aliviando-a da sua carga.

Mas, naquele dia, não resistira: aquelas palavras pareciam suas, não porque tivesse ilusões de chegar aonde ele chegara, mas porque percebia tão bem cada uma delas. Cada pedaço de alegria, cada nesga de dor, os sins e os nãos, os talvez de braço dado com a esperança.

E por isso se apropriara delas:

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

E acrescentou, por fim: Ainda que mal o saiba, ainda que mal o espere, ainda que mal confie, ainda que mal saiba como. Amor.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dar o salto

Na calada da noite, esgueirava-se por entre as sombras, conquistando escassos centímetros a cada novo avanço. Todos os passos tinham sido ensaiados vezes sem conta, à luz do dia, reconhecendo cada curva, cada declive, os arbustos já convertidos em referências, que lhe norteariam o caminho

Mas, naquele momento, uma escuridão profunda teimara em instalar-se sobre a montanha, quase sentindo uns braços negros de névoa a rodearem-lhe as pernas, a toldarem-no, parecendo querer abrandá-lo, fazê-lo voltar para trás. Nem o rasgo de lua no céu, de tão fino, o poderia iluminar.
Uma pedra que não antecipara, um ramo que se curvava, contrariado, à sua passagem, uma brisa que levaria o cheiro a medo até eles... todos eram, naquele momento, seus inimigos.

Independentemente de tudo o que o travava (ou, sobretudo, por causa de tudo o que o travava), tinha que seguir. Do outro lado, um mundo melhor. A perspetiva de uma vida em liberdade, com uma voz que se ouvisse, sem titubear. Mais tarde, mandaria buscá-la. Mas agora, não podia olhar para trás. Um salto de fé, de esperança, de futuro.

*

Escolhera aquele vestido azul florido que a mãe lhe dera pelos anos, há anos atrás. Assentava-lhe bem, diziam. E fora a última vez que vira a mãe sorrir, enquanto lhe pespegava um beijo na face afogueada. Viera a correr, na altura, para saber que mimo iria ser seu naquele dia. Nada de muito especial, não havia dinheiro para extravagâncias, mas não fazia mal, já estava habituada.

Dentro de um papel amarfanhado, retirou aquele pedaço de tecido, três botões sobre o peito, a condizer com o céu da sua terra. Nas mãos da mãe, ainda se notavam os sinais de o ter cosido todo, pesponto após pesponto, enquanto ela dormia, sem pressentir.

Naquela noite, fora a forma de se sentir especial, acarinhada e lembrar o que havia de ser lembrado. Abotoara o derradeiro botão, porque a cacimba já descia pela serra e o caminho seria longo. A mala, apenas com algumas roupas, tinha as recordações que precisava. E junto ao peito, encaixada num medalhão, a mais preciosa: a fotografia da mãe, que ficava.

Andara tanto, nem sabia o que doía mais, de tanto cansaço. Tentara cantar, como sempre fizera, para espantar aquele medo, de braço dado com uma tristeza que queria entrar. Pousou a mala no chão e, por momentos, nem se importou que lhe acenássem à beira da estrada. Sentou-se sobre a mala e sentiu-a também a desfalecer, com o peso. A sua mala de cartão.

*

Estava de partida. O aviso para o embarque acabara de soar, estava na hora. Um novo mundo estava à sua espera.
Já não era a primeira vez que fazia aquela viagem. Mas a cada nova travessia, a visita tornava-se estadia e a estadia começava a querer tornar-se mais permanente. Sentia que se aproximava o momento de escolher. Olhava para trás e via-se rodeado da família, de tantos amigos, até se recordava dos que o fizeram tropeçar no caminho. Eram parte do seu retrato, do seu percurso. Mesmo jovem, já contava por alguns dedos caminhos que fizera, mergulhos e regressos à superfície para respirar.

Lá haviam tantas portas que podia abrir, tantos olhares que acreditavam em si, que o faziam acreditar ainda mais. Sabia bem o que tinha aqui, o que já se vinha avizinhando, o tamanho das portas que se íam tornando liliputianas. Quem o conhecia, há muito antecipava, percebia a dúvida, a apreensão do salto.
Um salto para um novo mundo, é certo, mas também para uma nova porta em si, para uma adultez maior, para um sentido de vida talvez com mais sentido.





Estou para aqui a escrever, apenas para desejar tanta e tanta sorte nas decisões e nos caminhos, amigo PG.

sábado, 12 de maio de 2012

Alegria a peso

Tinha ficado, agora noutro lado, com uma regularidade diferente, mais distante, mas, curiosamente, mais presente.

Enquanto estivera, durante anos, fora sempre inteira. Estivesse feliz, cansada, a rasgar-se por dentro. Tudo era sentimento, verdade em figura de gente. Pelo menos era assim que a via, alegria a peso quando entrava na sala e nos contagiava com pouco, com tanto.

Cresceram juntas durante anos, aprenderam, partilharam, ensinaram. E sempre gostou de aprender com ela, saber como fazia, quais eram os segredos que não escondia, apenas os vivia, à sua maneira.

 

Um dia, partiu. Lembrava-se bem daquele dia. Não tinha qualquer memória se chovera, se estava calor ou de que horas seriam. Mas ficara-lhe o sentimento de desfecho, de uma tristeza tão funda por vê-la despedir-se, com tudo o que era, com tudo o que simbolizava. Naquela tarde, aquele sítio ficou diferente: as cores, as pessoas, as suas vozes e o que diziam perderam o sentido de outrora. Tinha levado consigo parte da alegria e agora, a custo, procurava por novo brilho, um outro sentido.

Tinha ficado, nos conselhos, nos momentos, agora mais raros. E aquela alegria a peso também lhe mostrou caminhos a percorrer. Que poderia encontrar sentidos e estares em si, dentro, fundo, com uma verdade só sua. (Obrigada pela amizade)


Para uma amiga inteira, verdadeira. Para AL (e Parabéns).
A terceira és tu, AF.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Matrioskas

Nunca tinham ido a casa dela. Por fora, nada de novo. Um prédio entre prédios, castanho como tantos, sem diferenças aparentes à vista desarmada. Zona de tamanha gente, que ali vinha para descansar, sem tempo sequer para colorir a paisagem.

Subiram, em expetativa, sentindo o convite como uma porta de entrada para um outro reino de convivência. Era um daqueles momentos em que os amigos se tornavam parte da família, de um núcleo escolhido, não imposto, em que a amizade se tornava ainda mais especial. Era o dia do aniversário dela.

No meio de tantos prédios, passos cinzentos, indiferentes, percebemos a diferença ao cruzar a ombreira da porta. Sentia-se, não sabia explicar porquê, parecia o aroma de um bolo acabado de fazer, que circulava por toda a casa, unindo, apaziguando.

Quase ao mesmo tempo, vieram as três. Sorrisos de colo, de estar tão ali. Um abraço daqueles a saber a canela e açúcar dos sonhos de infância. Que bom que tínhamos vindo! E fomos entrando, fazendo parte.

Ao olhar para elas, viera-lhe à memória a figura das matrioskas. Rendilhadas de flores, pequenos corações que as cobriam desde os contornos do manto até aos pés. Cores vibrantes. Encaixavam na perfeição. Mãe e filhas.

Simbiose de diferenças, um ritmo pausado articulado pelos anos, pelo sangue, pelo amor. Mais do que as tantas distâncias que se lhes percebiam nos traços, nos caminhos, nas opções, sentia-se o laço. Que as prendia sem apertar, que as sustinha, sem negar as necessárias experiências da vida. Sobretudo, que as fazia acreditar que faziam parte umas das outras, encaixavam naquele sentimento maior. Um sentimento de Família com um F tão maiúsculo que contagiava os presentes, nos contaminava.

Conheciamo-la melhor a ela. Uma das matrioskas, uma pessoa especial. Mesmo que, às vezes, de fora, as rendas de flores, os corações, o manto não fossem vistos, para os nossos olhos, estavam lá e sempre estariam. Porque sabíamos que aquelas flores continuariam a florescer, a assumir novas cores, a ramificar por outros, melhores, caminhos.

E essa era a nossa prenda. Acreditávamos, acreditamos e sabemos que a primavera e tantas estações vão chegar. E as suas flores, que não murcharam nem definharam, estão lá, com as cores que são só suas, especiais.

Para a AF.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedaço de Bolo

Desta vez ía fazer diferente. Esticara-se até ao limite para alcançá-la, em bicos de pés, as pontas dos dedos apontando para um objetivo que tardava, inalcançável. Sempre fizera assim, de cada vez que queria fazer um sabor especial, um agrado para todos e também para si.

Olhava para cima e, de todas as vezes, esticava cada músculo do seu corpo até que a sua mão conseguisse tocar a prateleira de cima. Mas jamais conseguira chegar lá. E como nunca era suficiente, chegava a pegar numa qualquer colher para tentar puxá-la para si. E lá, finalmente, vinha por aí abaixo, aos tropeções, plástico de um rosa já gasto pelo uso, mas sempre cumprindo o seu papel.

Desta vez ía ser diferente. Não se esticou do mesmo modo, já sabia que não resultava. Pegou num banco, subiu de um ímpeto e alcançou a taça, descendo de um salto, para começar os preparativos. Sobre a bancada, tinha colocado tudo o que iria precisar, para não perder tempo, para aguardar com expetativa o resultado final.

Desta vez ía ser igual. A mesma taça, a mesma bancada, as mesmas varetas. O mesmo bolo, laranja de cor, de sabor também, de recordações e do permanente prazer da vez seguinte, acolhido num sumo de frescura e suavidade.

E, um a um, foi deixando cair os ingredientes, e misturando, e envolvendo, ora em movimentos de candura, ora em correrias tão rápidas quanto as varetas permitiam, na pressa de provar. E com a ponta do dedo confirmava o que já sabia: o seu sabor, o sabor de sempre, o que queria, de todas as vezes.

O calor dos minutos foi passando; arriscava, de tempos a tempos, dar uma espreitadela daquelas em que se foge, sem que antes um olhar confirme o progresso e um sorriso aflore, de antecipação. O cheiro inundava a casa, avisando que o desfecho estava para breve.

Fazia lembrar a cor daquelas paisagens douradas pelo sol, em que o entardecer trazia os cheiros que antecipavam a escuridão. Orgulhosa, aqueceu durante segundos as mãos ao virá-lo. E o sumo, derramado, foi criando raízes pelo dourado adentro, deixando a sua marca.

Habitualmente não era ela que fazia as honras da casa. Gostava que antes dela confirmassem o sabor, a textura, o agrado. E a confirmação de sucesso vinha daí.

Lembrou-se de uma frase que ouvira, de que não podia ter e comer ao mesmo tempo. Tão dourado, tão aparentemente saboroso, tão orgulhosa que estava. Desta vez ía fazer diferente: pegou na faca, cortou a primeira fatia, fechou os olhos e deu a dentada original. E estava tão bom o seu bolo!