Um desses sorrisos irrompeu pelo
branco e negro – passara um dia, mas a premissa do cinzentismo institucional
era status quo incontornável – e
contagiou com um bom dia inesperado
de tão efusivo. Lembrava-se do dia anterior, tinha lido tudo o que levara e
voltara para continuar a conversa. E não tinha gostado do que lera!
Por entre o sorriso e o aceno da praxe,
levantou-se um sobrolho de estranheza e curiosidade. Não gostou? E concretamente de quê?
E a resposta não tardou em
chegar, tão efusiva quanto as boas vindas iniciais, mas agora contundente,
revoltosa: Vocês já não sabem escrever em
português, não há nada que se leia por aqui que seja exclusivamente na nossa
Língua. Hoje são os downsizings, a performance, os outsourcings, o coaching…!
E ia folheando o que levara para
ler, em busca das tão pouco desejadas palavras, para quase gritá-las de forma
triunfante de cada vez que as encontrava. Curiosamente, naquilo que era mesmo
nosso, pouco encontrara (pois, se calhar
não foi nesta!, dizia
entredentes). Mas que isso não fosse pretexto para abrandar no elogio da língua
pátria, ferida de morte por anglicismos e códigos empresariais usurpadores,
desrespeitosos de uma riqueza desaproveitada – Hoje já não há diretores gerais, administradores, gestores de topo,
hoje são todos CEOs (parara para respirar, tamanho o ímpeto de que tudo
saísse, em bom português), mas, no final
de contas, CEOs de coisa nenhuma! Ainda se escrevessem em latim, ainda tinha a
ver com as nossas origens…
Os argumentos vieram em catadupa,
respeitosos, é certo, mas já não se podia ser branco ou preto quando se tratava
de defender o que fazia. Mas do outro lado, cada vez menos sustentados,
continuavam os impropérios politicamente corretos «àquele estado de coisas».
E, num segundo, parte de si
viajou para aqueles momentos em que, todos os dias, se esforçava por se
ajustar, aprender, interiorizar uma outra forma de escrever «as cousas» numa
nova língua, agora diferente, mas sempre a sua, em que o que não se lia caíra
repentinamente, como quem tropeçara pelas escadas e já não voltara a ser.
Sempre gostara de escrever em bom
português, mas agora tinha que lhe comer as letras e os acentos e engolir a
vontade de não fazê-lo, também em prol do que era institucional. Mesmo que
tivesse assinado tudo o que havia para assinar, dito que as razões não eram
nossas e que a mudança podia ser de maneira diversa, o processo (também o seu)
já estava em marcha.
Curioso como poucas palavras de
outras paragens podiam ser tão aflitivas para alguns, ao passo que, com as
nossas, estávamos a fazer exactamente o mesmo: a torná-las mais do mundo, mas (ironicamente)
menos nossas.
E ainda que isso não parecesse
incomodar quem ali estava, afligia-a ela.
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