quarta-feira, 28 de março de 2012

CEO de cousa nenhuma (II) – Palavras do mundo

Naquele dia, o segundo, já lhes conhecia os ritmos, as perguntas, já não apenas para saber, mas tantos deles para continuarem a dar-se a conhecer. E já reconhecia algumas caras, alguns sorrisos e acenos soavam agora menos estranhos, mesmo que fruto de vislumbres de breves segundos anteriores.

Um desses sorrisos irrompeu pelo branco e negro – passara um dia, mas a premissa do cinzentismo institucional era status quo incontornável – e contagiou com um bom dia inesperado de tão efusivo. Lembrava-se do dia anterior, tinha lido tudo o que levara e voltara para continuar a conversa. E não tinha gostado do que lera!

Por entre o sorriso e o aceno da praxe, levantou-se um sobrolho de estranheza e curiosidade. Não gostou? E concretamente de quê?

E a resposta não tardou em chegar, tão efusiva quanto as boas vindas iniciais, mas agora contundente, revoltosa: Vocês já não sabem escrever em português, não há nada que se leia por aqui que seja exclusivamente na nossa Língua. Hoje são os downsizings, a performance, os outsourcings, o coaching…!

E ia folheando o que levara para ler, em busca das tão pouco desejadas palavras, para quase gritá-las de forma triunfante de cada vez que as encontrava. Curiosamente, naquilo que era mesmo nosso, pouco encontrara (pois, se calhar não foi nesta!, dizia entredentes). Mas que isso não fosse pretexto para abrandar no elogio da língua pátria, ferida de morte por anglicismos e códigos empresariais usurpadores, desrespeitosos de uma riqueza desaproveitada – Hoje já não há diretores gerais, administradores, gestores de topo, hoje são todos CEOs (parara para respirar, tamanho o ímpeto de que tudo saísse, em bom português), mas, no final de contas, CEOs de coisa nenhuma! Ainda se escrevessem em latim, ainda tinha a ver com as nossas origens…

Os argumentos vieram em catadupa, respeitosos, é certo, mas já não se podia ser branco ou preto quando se tratava de defender o que fazia. Mas do outro lado, cada vez menos sustentados, continuavam os impropérios politicamente corretos «àquele estado de coisas».

E, num segundo, parte de si viajou para aqueles momentos em que, todos os dias, se esforçava por se ajustar, aprender, interiorizar uma outra forma de escrever «as cousas» numa nova língua, agora diferente, mas sempre a sua, em que o que não se lia caíra repentinamente, como quem tropeçara pelas escadas e já não voltara a ser.

Sempre gostara de escrever em bom português, mas agora tinha que lhe comer as letras e os acentos e engolir a vontade de não fazê-lo, também em prol do que era institucional. Mesmo que tivesse assinado tudo o que havia para assinar, dito que as razões não eram nossas e que a mudança podia ser de maneira diversa, o processo (também o seu) já estava em marcha.

Curioso como poucas palavras de outras paragens podiam ser tão aflitivas para alguns, ao passo que, com as nossas, estávamos a fazer exactamente o mesmo: a torná-las mais do mundo, mas (ironicamente) menos nossas.

E ainda que isso não parecesse incomodar quem ali estava, afligia-a ela.

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