- Ah, pois é! É ou não é, Tia Maria, é ou não é? - E eu sorria-lhe, respondendo que sim, claro que era, Fernando, pois claro que era.
Tinham passado quase trinta anos desde a primeira vez que o vira.
Barba grisalha, quase até ao peito, ainda com alguma migalha perdida de uma escassa côdea que tivesse roído naquela manhã. O cabelo, de tão emaranhado, não deixava perceber se alguma vez tinha conhecido pente que o alinhasse. As calças, amarradas com um cordel, iam escorrendo por ele abaixo e logo corria a segurá-las, para que não o vissem sem preparos.
Nos dias cinzentos, em que o frio se abraçava a uma chuva miudinha, continuava a aparecer - faça chuva ou faça sol, dizia... - com um impermeável amarelo que se via bem antes de lhe ouvirmos os primeiros responsos.
- Tem trabalho para mim, Ti Manel? - Todos eram Manéis e Marias, assim não trocava os nomes e não ofendia ninguém com esquecimentos. Mas conhecia-os a todos, sabia onde falar, onde ficar calado, até onde ir, sem nunca ser mais do que era.
Durante muito tempo, foi o «velho do saco» lá da terra e as mães cultivavam essa inverdade naqueles pequenos que, perante a figura, se encolhiam e terminavam rapidamente a sopa .
É verdade que sempre o conhecera velho, e o saco que trazia consigo, quase vazio, albergava pequenos nadas que, pelo caminho, íam partilhando consigo e lhe permitiam deitar-se com a barriga menos vazia.
Nos primeiros tempos, também me encolhi, receando aquela imagem, aquela voz de trovão e tantas frases sem nexo.
- Tem aí alguma terra para amanhar, ti Manel? - Era o trabalho dele, o de esventrar o solo e prepará-lo para dias de colheita, alinhando aqui, sachando acolá, com cuidado, paciência, sabedoria.
E não percebia se era a enxada que, a cada vez que entrava na terra, lhe alimentava a vontade das palavras ou se eram estas que, em jorros, lhe infundiam energia para continuar.
Não me lembro de o ver calado. Ficava a vê-lo ao longe e já antecipava a frase seguinte, repetida tantas vezes: É ou não é? Ah, pois é!
De tempos a tempos, o tom murchava e as palavras saiam contidas, sentidas: Ai, os malandros, queriam fazer-me a folha! Os irmãos, sim, os dela... Por eles, tinha ido parar ao xelindró ou pior (e rasgava com um dedo a jugular, em jeito dramático)... E ao de cima vinha uma raiva imensa, sempre fervilhante de todas as vezes que se lembrava.
Outros momentos havia em que o olhar se afundava na terra e a voz quase sumida repetia: Ah, e ela, ela... como foi capaz? e ela... e nada mais se ouvia, nos poucos segundos em que o Fernando silenciava.
Nunca ninguém soube ao certo o que lhe aconteceu, mas constava que ficara louco por amor. Um amor tão desvairado e triste, que lhe tinha mantido a bondade, mas roubado o pensar.
Passados quase trinta anos, vi-o há dias a passar perto da minha janela, sachola ao ombro e um impermeável amarelo. Parava amiúde para lançar a quem passava, conhecido ou desconhecido, o seu Ah, pois é!
E dei por mim a perguntar-me se hoje, tanto tempo depois, se poderia enlouquecer por amor. Se seria possível alguém perder-se tanto que nunca mais se encontrasse, por mais vida que vivesse. E soube que sim, ainda que a loucura se passasse a chamar de silêncio ou solidão. E desejei nunca saber de verdade...
E sorri, com a minha princesa ao colo que, ao vê-lo passar, me dizia ao ouvido - É o Fanando, mãe - e aos seus É o não é? respondia, com um sorriso sem receio: Xim, Xim, ah pois é!

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