sábado, 10 de março de 2012

Palavras

Acredito nas Palavras.

Grandes ou simples ditongos, agudas, graves, complexas, banais, difíceis de pronunciar ou até de combinar, sempre gostei de palavras. De misturá-las, baralhá-las, procurar-lhes novos sentidos, deixar que dessem expressão ao que tenho cá por dentro.

Sempre acreditei no que está em cada combinação de letras, como se fossem a representação literal, sem subterfúgios, de pensamentos, emoções, pedaços de vida.

Há algum tempo, uma das pessoas mais importantes da minha vida disse-me que eu valorizava as palavras mais do que a maioria dos comuns mortais. E é verdade.
Se são momentos de coragem, de ânimo, gosto de ouvi-los na forma de palavras que me façam acreditar que amanhã será melhor. Nas chamadas de atenção, gosto que mas digam certeiras, concretas, sem cartas que fiquem na manga para descobrir mais tarde.
E quando são palavras de amor, envoltas num encanto tão especial, só o seu som, em sussuro, acalma os lados lunares, trazendo a luz do sol para onde se sente.

Gosto em especial das palavras escritas. Ficam, perduram, depois de lidas e relidas e sentidas e guardadas onde não se descubram (ou talvez para serem descobertas), para mais tarde voltar ao travo que deixaram à primeira passagem.

Porque gosto tanto? Talvez o ato da escrita seja, em essência um momento de verdade, em que as palavras sejam «a palavra» (até se costuma dizer «tens a minha palavra», para afiançar verdades ou compromissos), em que o que fica escrito não possa ser nem mais nem menos que uma versão transparente e honesta da realidade.

Guardo ainda hoje palavras que me marcaram, releio-as com saudades de tantos momentos bons, com angústia ao lembrar-me de outros. São cartas, bilhetes, folhas soltas, sms, em que a palavra ficou, com verdade. São minhas, foram escritas por mim ou para mim, posso fazer com elas o que quiser... rasgá-las em pedaços, apagá-las, afogá-las em lágrimas, ou guardá-las (como tenho feito) e trazê-las bem perto de mim, para lembrar, para sentir. Assim continuará, enquanto acreditar (como acredito) que continua a valer a pena relê-las.

É curioso como o universo digital e o potencial de estarmos todos ligados, em tempo real, uns aos outros, veio revolucionar esse mundo das palavras. Hoje todos escrevem, partilham, têm opinião. Piadas, frases inspiradas, ideias que pretendem inflamar o mundo (ou, pelo menos, conquistar «likes» dos amigos). Alguns chegam a escrever a verdade, a sua versão, que também se torna a verdade dos seus.

Então o que fazer com a verdade de algumas dessas palavras? O que fazer quando, em vez de iluminarem, magoam? Como fazê-las voltar atrás? Verdades que retratam momentos, e que ficam, lidas, inapagadas, lembrando... Mesmo que se apagassem, o seu rasto tinha já ficado vincado em tantas leituras.

O que fazer com o desejo quase insano de que essas sejam substituídas por outras, que sinalizem ao mundo um mundo de novas possibilidades, em que rotinas e desafios encontrem a expressão certa e nos façam felizes?

Vou continuar a procurar as palavras, porque, para mim, a verdade derradeira continua a estar aí.
Mas, o que fazer com a espera pela visibilidade de outras palavras? Nada, apenas esperar, e acreditar que, na sua plenitude, virão.

E, sobretudo, encontrar as minhas próprias palavras!


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