Nunca tinham ido a casa dela. Por fora, nada de novo. Um prédio entre prédios, castanho como tantos, sem diferenças aparentes à vista desarmada. Zona de tamanha gente, que ali vinha para descansar, sem tempo sequer para colorir a paisagem.
Subiram, em expetativa, sentindo o convite como uma porta de entrada para um outro reino de convivência. Era um daqueles momentos em que os amigos se tornavam parte da família, de um núcleo escolhido, não imposto, em que a amizade se tornava ainda mais especial. Era o dia do aniversário dela.
No meio de tantos prédios, passos cinzentos, indiferentes, percebemos a diferença ao cruzar a ombreira da porta. Sentia-se, não sabia explicar porquê, parecia o aroma de um bolo acabado de fazer, que circulava por toda a casa, unindo, apaziguando.
Quase ao mesmo tempo, vieram as três. Sorrisos de colo, de estar tão ali. Um abraço daqueles a saber a canela e açúcar dos sonhos de infância. Que bom que tínhamos vindo! E fomos entrando, fazendo parte.
Ao olhar para elas, viera-lhe à memória a figura das matrioskas. Rendilhadas de flores, pequenos corações que as cobriam desde os contornos do manto até aos pés. Cores vibrantes. Encaixavam na perfeição. Mãe e filhas.
Simbiose de diferenças, um ritmo pausado articulado pelos anos, pelo sangue, pelo amor. Mais do que as tantas distâncias que se lhes percebiam nos traços, nos caminhos, nas opções, sentia-se o laço. Que as prendia sem apertar, que as sustinha, sem negar as necessárias experiências da vida. Sobretudo, que as fazia acreditar que faziam parte umas das outras, encaixavam naquele sentimento maior. Um sentimento de Família com um F tão maiúsculo que contagiava os presentes, nos contaminava.
Conheciamo-la melhor a ela. Uma das matrioskas, uma pessoa especial. Mesmo que, às vezes, de fora, as rendas de flores, os corações, o manto não fossem vistos, para os nossos olhos, estavam lá e sempre estariam. Porque sabíamos que aquelas flores continuariam a florescer, a assumir novas cores, a ramificar por outros, melhores, caminhos.
E essa era a nossa prenda. Acreditávamos, acreditamos e sabemos que a primavera e tantas estações vão chegar. E as suas flores, que não murcharam nem definharam, estão lá, com as cores que são só suas, especiais.
Para a AF.

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