quarta-feira, 25 de abril de 2012

Matrioskas

Nunca tinham ido a casa dela. Por fora, nada de novo. Um prédio entre prédios, castanho como tantos, sem diferenças aparentes à vista desarmada. Zona de tamanha gente, que ali vinha para descansar, sem tempo sequer para colorir a paisagem.

Subiram, em expetativa, sentindo o convite como uma porta de entrada para um outro reino de convivência. Era um daqueles momentos em que os amigos se tornavam parte da família, de um núcleo escolhido, não imposto, em que a amizade se tornava ainda mais especial. Era o dia do aniversário dela.

No meio de tantos prédios, passos cinzentos, indiferentes, percebemos a diferença ao cruzar a ombreira da porta. Sentia-se, não sabia explicar porquê, parecia o aroma de um bolo acabado de fazer, que circulava por toda a casa, unindo, apaziguando.

Quase ao mesmo tempo, vieram as três. Sorrisos de colo, de estar tão ali. Um abraço daqueles a saber a canela e açúcar dos sonhos de infância. Que bom que tínhamos vindo! E fomos entrando, fazendo parte.

Ao olhar para elas, viera-lhe à memória a figura das matrioskas. Rendilhadas de flores, pequenos corações que as cobriam desde os contornos do manto até aos pés. Cores vibrantes. Encaixavam na perfeição. Mãe e filhas.

Simbiose de diferenças, um ritmo pausado articulado pelos anos, pelo sangue, pelo amor. Mais do que as tantas distâncias que se lhes percebiam nos traços, nos caminhos, nas opções, sentia-se o laço. Que as prendia sem apertar, que as sustinha, sem negar as necessárias experiências da vida. Sobretudo, que as fazia acreditar que faziam parte umas das outras, encaixavam naquele sentimento maior. Um sentimento de Família com um F tão maiúsculo que contagiava os presentes, nos contaminava.

Conheciamo-la melhor a ela. Uma das matrioskas, uma pessoa especial. Mesmo que, às vezes, de fora, as rendas de flores, os corações, o manto não fossem vistos, para os nossos olhos, estavam lá e sempre estariam. Porque sabíamos que aquelas flores continuariam a florescer, a assumir novas cores, a ramificar por outros, melhores, caminhos.

E essa era a nossa prenda. Acreditávamos, acreditamos e sabemos que a primavera e tantas estações vão chegar. E as suas flores, que não murcharam nem definharam, estão lá, com as cores que são só suas, especiais.

Para a AF.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedaço de Bolo

Desta vez ía fazer diferente. Esticara-se até ao limite para alcançá-la, em bicos de pés, as pontas dos dedos apontando para um objetivo que tardava, inalcançável. Sempre fizera assim, de cada vez que queria fazer um sabor especial, um agrado para todos e também para si.

Olhava para cima e, de todas as vezes, esticava cada músculo do seu corpo até que a sua mão conseguisse tocar a prateleira de cima. Mas jamais conseguira chegar lá. E como nunca era suficiente, chegava a pegar numa qualquer colher para tentar puxá-la para si. E lá, finalmente, vinha por aí abaixo, aos tropeções, plástico de um rosa já gasto pelo uso, mas sempre cumprindo o seu papel.

Desta vez ía ser diferente. Não se esticou do mesmo modo, já sabia que não resultava. Pegou num banco, subiu de um ímpeto e alcançou a taça, descendo de um salto, para começar os preparativos. Sobre a bancada, tinha colocado tudo o que iria precisar, para não perder tempo, para aguardar com expetativa o resultado final.

Desta vez ía ser igual. A mesma taça, a mesma bancada, as mesmas varetas. O mesmo bolo, laranja de cor, de sabor também, de recordações e do permanente prazer da vez seguinte, acolhido num sumo de frescura e suavidade.

E, um a um, foi deixando cair os ingredientes, e misturando, e envolvendo, ora em movimentos de candura, ora em correrias tão rápidas quanto as varetas permitiam, na pressa de provar. E com a ponta do dedo confirmava o que já sabia: o seu sabor, o sabor de sempre, o que queria, de todas as vezes.

O calor dos minutos foi passando; arriscava, de tempos a tempos, dar uma espreitadela daquelas em que se foge, sem que antes um olhar confirme o progresso e um sorriso aflore, de antecipação. O cheiro inundava a casa, avisando que o desfecho estava para breve.

Fazia lembrar a cor daquelas paisagens douradas pelo sol, em que o entardecer trazia os cheiros que antecipavam a escuridão. Orgulhosa, aqueceu durante segundos as mãos ao virá-lo. E o sumo, derramado, foi criando raízes pelo dourado adentro, deixando a sua marca.

Habitualmente não era ela que fazia as honras da casa. Gostava que antes dela confirmassem o sabor, a textura, o agrado. E a confirmação de sucesso vinha daí.

Lembrou-se de uma frase que ouvira, de que não podia ter e comer ao mesmo tempo. Tão dourado, tão aparentemente saboroso, tão orgulhosa que estava. Desta vez ía fazer diferente: pegou na faca, cortou a primeira fatia, fechou os olhos e deu a dentada original. E estava tão bom o seu bolo!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Negativos

Deitada, revia, de olhos fechados, o dia quase terminado. Agitado, como se antecipara. Com muitas solicitações, de tantos lados, como já seria de esperar. Todos para ver a menina, enchê-la de beijos, ouvir, pasmados, as graças que já dizia, acompanhadas de um olhar que parecia já tanto saber, ainda sem saber. Tinham vindo todos.

Estás mais gorda!
Esse cabelo já não é o que era...
Que olhar tão triste, as lágrimas parecem encolher-se por vergonha...
Já vi esse fato tantas vezes, o verdadeiro fato de cerimónias!
Podias ter vindo melhor, esse gosto deixa tanto a desejar...

Frase após frase, recordava todas as palavras que tinha colado a cada um deles, à medida que lhes fora passando no caminho, com ela ao colo.
Não mais do que um breve sorriso, um cumprimento às pressas, que o gancho teimava em ser arrancado de entre os caracóis e o chapéu branco ficara já perdido no chão, alguns passos atrás.

Entrar-se mudo e sair-se calado...
Que mau aspeto, ainda mais numa ocasião destas!

À medida que a máquina disparava, congelando no tempo as memórias daquele dia - e tantos eram os sorrisos, as conversas em surdina, os olhares de encantamento, as brincadeiras das crianças - também ela ia fazendo o seu álbum, colando as fotografias que tirara, a preto e branco.

Lembrava-lhe aquelas tiras de negativos das fotografias de outrora, algumas ainda esquecidas no fundo de uma qualquer gaveta, em que as pessoas só se percebiam a contra luz, em contornos negros quase indistintos. Assim tinha capturado as imagens daquele dia tão especial, a negativo.

E conforme o escuro da noite ía ocupando os cantos do quarto, lançou um último olhar para ela, para eles, já adormecidos, e sorriu.

Apesar de tudo, vieste, estás aqui.
Mudas tantas vezes o teu caminho para me ajudar.
Adoras aqueles que mais adoro...
Tens estado sempre aqui, nos dias de sol, mas sobretudo quando a neblina se instala e o caminho se esbate...
Tudo fazes para me fazer sorrir!

E os negativos ganharam vida no seu álbum. Porque eram assim aquelas pessoas, as escolhidas para estar ali naquele dia, as que escolheram estar ali naquele momento.
Inteiras, presentes, amigas. As suas pessoas do coração.

domingo, 1 de abril de 2012

Special Day

Naquela semana, tinha chovido todos os dias. Uma neblina que se agarrava às coisas perdurava durante longas horas e as grossas gotas de chuva persistiam em embaciar os dias.

Momentos que gostaria que fossem de sol, resplandescente, contagiante, para acompanhar o sorriso que a vinha acompanhando nesses últimos dias. Os preparativos tinham o seu quê de mágico: detalhes sem importância que, encaixados com carinho, se revelariam em momentos de significado, inesquecíveis. Acabou por desistir de sonhar com o bom tempo e antecipou com expetativa os abençoados auspícios da chuva.

O dia nasceu radioso, para sua surpresa. Afinal, a natureza tinha decidido juntar-se ao encantamento e deixar-se descobrir no melhor de si. Os primeiros raios de sol que entravam pelas nesgas de estore entreabertas eram o sinal de partida para uma nova alvorada, uma nova vida.

Olhou-se ao espelho e percorreu com a ponta dos dedos as minúsculas peças que adornavam o vestido, pedrinhas cintilantes que pareciam ganhar vida de cada vez que rodopiava, capturando os matinais raios de sol. Formavam caminhos, cruzavam-se, encaixavam-se em cornucópias sobre aquela vastidão de branco; sobretudo, eram o espelho de uma felicidade maior, a dela, em antecipação.

Foi o primeiro dia mais feliz da sua vida. Porque estavam juntos, ali, ouvindo-se ao longe (e tão ao perto) uma emoção celestial.

Não sabia na altura que aqueles traços desenhados no vestido quase pareciam a vida que viria.
Movimentos em harmonia,  pedra por pedra, brilhantes, de pessoas que encontraram o seu sentido no outro.
Algumas missangas cairam, ficaram pelo caminho, levando a descobrir outros contornos nos desenhos que estavam e a capturar novos sóis para que tantas, tantas outras continuassem a cintilar.

E o desenho que lá estava, desde o início, foi sendo feito em dias, redescoberto, redesenhado. A cada dia feliz.

(a tantos tantos mais, até que os nossos sóis se ponham)