segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedaço de Bolo

Desta vez ía fazer diferente. Esticara-se até ao limite para alcançá-la, em bicos de pés, as pontas dos dedos apontando para um objetivo que tardava, inalcançável. Sempre fizera assim, de cada vez que queria fazer um sabor especial, um agrado para todos e também para si.

Olhava para cima e, de todas as vezes, esticava cada músculo do seu corpo até que a sua mão conseguisse tocar a prateleira de cima. Mas jamais conseguira chegar lá. E como nunca era suficiente, chegava a pegar numa qualquer colher para tentar puxá-la para si. E lá, finalmente, vinha por aí abaixo, aos tropeções, plástico de um rosa já gasto pelo uso, mas sempre cumprindo o seu papel.

Desta vez ía ser diferente. Não se esticou do mesmo modo, já sabia que não resultava. Pegou num banco, subiu de um ímpeto e alcançou a taça, descendo de um salto, para começar os preparativos. Sobre a bancada, tinha colocado tudo o que iria precisar, para não perder tempo, para aguardar com expetativa o resultado final.

Desta vez ía ser igual. A mesma taça, a mesma bancada, as mesmas varetas. O mesmo bolo, laranja de cor, de sabor também, de recordações e do permanente prazer da vez seguinte, acolhido num sumo de frescura e suavidade.

E, um a um, foi deixando cair os ingredientes, e misturando, e envolvendo, ora em movimentos de candura, ora em correrias tão rápidas quanto as varetas permitiam, na pressa de provar. E com a ponta do dedo confirmava o que já sabia: o seu sabor, o sabor de sempre, o que queria, de todas as vezes.

O calor dos minutos foi passando; arriscava, de tempos a tempos, dar uma espreitadela daquelas em que se foge, sem que antes um olhar confirme o progresso e um sorriso aflore, de antecipação. O cheiro inundava a casa, avisando que o desfecho estava para breve.

Fazia lembrar a cor daquelas paisagens douradas pelo sol, em que o entardecer trazia os cheiros que antecipavam a escuridão. Orgulhosa, aqueceu durante segundos as mãos ao virá-lo. E o sumo, derramado, foi criando raízes pelo dourado adentro, deixando a sua marca.

Habitualmente não era ela que fazia as honras da casa. Gostava que antes dela confirmassem o sabor, a textura, o agrado. E a confirmação de sucesso vinha daí.

Lembrou-se de uma frase que ouvira, de que não podia ter e comer ao mesmo tempo. Tão dourado, tão aparentemente saboroso, tão orgulhosa que estava. Desta vez ía fazer diferente: pegou na faca, cortou a primeira fatia, fechou os olhos e deu a dentada original. E estava tão bom o seu bolo!

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