domingo, 24 de junho de 2012

O Roubo

Nunca roubara nada. Chegava a pedir emprestado, se caso fosse, mas tinha para si, intimamente, que o que era dos outros não era seu.
Às vezes, acabava por se esquecer de devolver, quando as dos outros se misturavam com as suas, mas logo procurava repor a propriedade e agradecer.

Nunca fora daqueles garotos que, ao passar pelas prateleiras, deixavam cair «sem querer» qualquer coisa para dentro do bolso.
Nem daqueles jovens que tomavam o peso à carteira dos pais, aliviando-a da sua carga.

Mas, naquele dia, não resistira: aquelas palavras pareciam suas, não porque tivesse ilusões de chegar aonde ele chegara, mas porque percebia tão bem cada uma delas. Cada pedaço de alegria, cada nesga de dor, os sins e os nãos, os talvez de braço dado com a esperança.

E por isso se apropriara delas:

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

E acrescentou, por fim: Ainda que mal o saiba, ainda que mal o espere, ainda que mal confie, ainda que mal saiba como. Amor.