quarta-feira, 28 de março de 2012

CEO de cousa nenhuma (I) - A preto e branco

Sorrir e acenar, sorrir e acenar! Era a frase que lhe viera, repentinamente, à cabeça: uma memória de pinguins alinhados, saídos de um filme de animação, um eterno branco e preto, no cumprimento do seu dever. Todos iguais, sem sair da linha.

Sorria e cumprimentava, respondia, perguntava, chamava a atenção para o que de melhor faziam. Mesmo quando não dizia tudo, quando guardava pedaços de curiosidade para futuras conversas, ou fazia perguntas curiosas para, no meio dos acenos, reduzir a sensação de que a linha que seguia lhe apertava o peito.

Era tanta gente, ainda que menos do que das outras vezes. Compenetrados, alguns sorridentes, tantos também a cumprirem o seu papel de serem vistos, de picarem o ponto, num mundo em que não estar era sinónimo de já não ser.

Era no meio deles que gostaria de estar, de passar a estar. Seria tão mais fácil se tivesse tomado decisões diferentes, se tivesse sentido antes que o seu caminho era aquele. Fosse a preto e branco ou a cores ou independentemente da paleta cromática que fosse a sua, era para ali que queria ir, sabia disso.

Às vezes vinham aos magotes, quase se atropelavam, para perceber o que havia ali, o que poderiam ficar a conhecer, o que poderiam levar, como se poderiam mostrar a todos, em todo o lado. E as vozes sobrepunham-se, só sendo possível sorrir para alguns, enquanto os outros se limitavam a passar, pegar nos papéis e seguir para a paragem seguinte, onde diferentes pinguins os esperariam.

Outras vezes reinava a quietude, e os sorrisos e acenos davam lugar a conversas, a descobertas breves, de situações, de pessoas, que agora circulavam com mais calma, dispostas a saber de verdade.

Era também assim a estranheza surpreendente da vida (ou a surpresa estranha da mesma, só mudava o ponto de vista…) – às vezes, de momentos em que não gostaria de estar, vinham palavras simpáticas, de verdadeiro interesse pelo que fazia. E assim o dia ficava melhor.

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