segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A primeira vez

Mãe, tenho um segredo!

Levantara os olhos do livro e olhava agora para ele com toda a atenção. Afogueado, viera a correr e voltava-se para trás, quase que com receio de que alguém viesse também.
Olhara-o bem fundo e o negro dos seus olhos devolveu-me uma ânsia mal escondida, um receio alegre, um querer sem saber como.

Preciso que fiques aqui comigo e sejas a minha guarda costas!
Sempre fiquei ou, pelo menos, sempre tentei estar, estando mesmo, à minha maneira.
Mas, desta vez, ele tinha pedido, expressamente, com aquela urgência, para que ficasse ali.
E o que haveria para guardar, que merecesse tamanho sussuro...?

Tens de ficar a guardar a porta, ninguém pode entrar!
Mas qual era o segredo? Só podia dizer isso.
Mas alguém lhe queria fazer mal? Nem pensar, respondia-me com um sorriso, como se de mal nada houvesse no caso.
Mas era algo errado o que se propunha fazer? Claro que não, mãe! e eu pensava: Claro que não, ía contar se assim fosse?!
E eu poderia entrar, se fosse preciso? Não ía ser necessário, descansa, mãe!

Confiei. Sorri, olhando para aqueles olhos que desde há sete anos me encantavam e fui para junto da porta, empinando os ombros para trás, com ar de autoridade a respeitar-se.

Riu-se da minha reação, do meu consentimento sem detalhes e, olhando à volta, chegou-se ao meu ouvido.
Mãe, combinámos dar o primeiro beijo e tu tens de ficar a tomar conta, para ninguém entrar.

Rir e chorar eram ambas opções possíveis. Não sabia se separadas, se juntas, perante aquele enredo infantil, aquele desejo sincero da primeira vez. Entre uma e outra, combinámos qual seria a desculpa se alguém quisesse entrar.

E foi buscá-la. Corria, com um sorriso de expetativa, parecia ter asas nos pés.

Mas ela não veio.
Contaste à tua mãe, não posso confiar mais em ti, por isso, agora não vou!

Voltou ele, cabisbaixo, dizendo que não fazia mal, mas com a tristeza a espreitar na voz, no olhar que lhe conhecia. Ainda lhe sugeri palavras de reconquista, mas a desconfiança estava lançada e, até ao final das férias, brincaram, jogaram tanto, chapinharam nas poças da praia, mas ela não veio.

Mas ele não desiste e continua à espera, o próximo Verão não tardará.

(Para o filho do meu coração)


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