quinta-feira, 15 de março de 2012

Reflexos

Era linda. Costumava ouvir essas palavras, ditas de tantas formas, diferentes palavras, um mesmo sentido.

Um sorriso iluminado, um olhar que escondia segredos à espera de serem revelados, um carinho quase à flor da pele. Era linda e meneava sem saber.

Era linda e nunca acreditara que o fosse. Um tom doce, um gesto caloroso tinham sido sempre, no seu interior, epítetos de fraqueza e não parte da sua grande força. A beleza que tantos viam nunca lhe fez eco, nunca a sentiu verdadeira, dentro de si.

Um dia, alguém especial disse-lhe que era especial e, por breves instantes, sonhou que isso fosse possível. Um dia, chegou mesmo a sentir que era a mulher mais bonita do universo, quando, face a um futuro por descobrir, disse sim ao seu princípe encantado.

Mas esse encanto dos momentos especiais não chegava para os dias em que se olhava ao espelho e via sobretudo os defeitos e as rugas, frustrações, sonhos por cumprir, tantas dúvidas e medos.

Era linda e não sabia. E os outros, com o tempo, e talvez vencidos pelo cansaço, começaram também a reparar naqueles cambiantes de cinza, que foram contaminando os olhos.

Um dia foi mãe. E nesse dia viu a criança mais linda do seu mundo, uns olhos negros que pareciam um firmamento de promessas, uma imensidão de sonhos por cumprir. E aí mergulhou, na certeza de querer fazê-la feliz, mesmo sem saber como.

E num dos muitos dias, já distantes do minuto original, em que lhe dizia que tinha tudo para ser e crescer como quisesse, deu por si a olhar-se ao espelho nesses olhos e a receber de volta um reflexo inesperadamente doloroso.

Aquele menino também não acreditava. Mas como podia uma criança tão profundamente boa sentir que não era especial, como  podia acreditar que pequenas falhas lhe retiravam o valor do seu coração? Como fazer para que percebesse, acreditasse, sentisse verdadeiramente todo o tamanho do que era e do que poderia ser?

E a voz especial, que não desistira, respondeu baixinho: E como podes tu não ver-te a ti?
(e serás a pessoa que, neste mundo, melhor o entenderá...)

O desafio de recomeçar ficou, nesse dia, tão mais pujante, urgente, maior...

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